sexta-feira, dezembro 23, 2016

R(PG)etrospectiva

Um personagem teve dor de barriga, o jogador achou isso tão ridículo que saiu do jogo. Eu entendo, talvez o Batman nunca tenha tido dor de barriga ou algo assim.
Mesma pessoa passa o ano reclamando que acha um monte de grupo mas todos tem problemas, de várias naturezas, e ela não consegue jogar em nenhum. Sai de todos.
Eu nem cogitei a possibilidade do problema ser ela e não os grupos. "Obviamente os problemas são os dados", já que alguns egos não sobrevivem a uma falha.

 

Ainda assim, esse foi um ano incrível RPGisticamente falando ^__^. Conheci gente nova e legal, algumas pessoas de anos atras também voltaram a jogar junto. 
Joguei com a Graci e com a Chai. Jogos novos (Savage Worlds) e jogos antigos (Storyteller). A campanha do Gustavo fez aniversário. Fizemos um grupo só com jogadoras (que esta maravilhoso \o/) Coletei mais de mil questionários, li um tanto considerável (que eu não vou chamar de muito) sobre probabilidade e game design. Narrei em evento, o jogo foi bom, minha habilidade de calcular o tempo da sessão foi péssima ¯\_(ツ)_/¯

Foi um ano de commissions muito felizes também. Conheci vários artistas novos que fizeram coisas incríveis pelos meus personagens.

Primeiro teve o Cody. Meu gangrel, não exatamente novo, o personagem surgiu a uns quatro anos mas agora que ele subiu no palco e esta tendo atenção, desenhos e jogo.
O crossover ai do lado tem tudo ha ver com os personagens, tanto ele quando a Red, e foi feito pelo BloodyAchimedes que eu super recomendo.







Claro que tem Cody pela Chairim também. Inclusive na HQ MareRosso dela :) orgulho do filhote.










Além disso teve L5R,. Asahina Yukihime continua uma das minhas personagens preferidas e eu tive a sorte de conhecer a talentosa Sandra, tem mais arte dela em Legendless Art.

Foi uma pessoa adorável de se trabalhar, comunicação ótima. Desenhos lindos em vários estilos e resultado incrível . D+!



E por fim, PagodaComics. Eu simplesmente adoro fazer encomendas com a Anticia. Gosto de tudo na forma como ela trabalha, sketches, pesquisa, o jeito de usar as referências, comunicação. Tudo!
Nosso projeto das quatro estações continua, lentamente mas continua.

Além disso, teve a Draconnasti, Simone, Jesse Rother, Jessica. Muito obrigada a todas pelos desenhos :)








Depois dessa retrospectiva breve; Ficam os meus votos de Feliz Ano Novo! Que todos encontrem bons grupos, bons jogos, que possam se divertir, curtir e rolar muitos sucessos, em on e em off, em 2017!!!

domingo, julho 17, 2016

L5R - Random NPC Fluffy Generator

As vezes um NPC não planejado é necessário e você precisa dar uma "vida" a mais para ele. As vezes você esta com preguiça de fazer um background mas o GM insiste que quer porque quer. As vezes você só precisa de uma ideia qualquer para iniciar o processo criativo.

Para esses momentos existe o NPC Fluffly Generator., com versões on-line e off-line.

Lógico que não é perfeito e eu particularmente desaprovo os cabelos coloridos, mas ainda assim é uma ferramenta simples que pode ser uma mão na roda em momentos de desespero.


quinta-feira, julho 14, 2016

One night stand

Eles não estavam juntos, nem mo mento mais próximo. Era um jovem querendo ganhar a noite e uma garota com sonhos distantes. Por um acidente dividiam o sake.

Yoshiro talvez fosse digno de alguma distinção se comparado aos ronins do Império, na verdade era alguém autenticamente mediano, não se destaca em estatura ou porte. Os cabelos escuros eram mantidos curtos e arrepiados, mostrando toda a rebeldia que um samurai sem estirpe conseguia demonstrar. Os olhos eram provavelmente a parte mais atraente, guardavam uma vivacidade matreira que poucas pessoas vivendo nas condições que ele normalmente vivia conseguiriam guarda. Ou talvez fosse só o brio do álcool. 

Taki seria bonita se pudesse cuidar disso. Os cabelos foram cortados mais do que seria adequado a qualquer mulher, eram bem negros e estavam secos, também a pele escurecida dos dias passados ao sol. Não se alimentava muito bem mas ainda guardava um contorno de formas agradáveis, nitidamente femininas. Tinhas as roupas mais simples do bando e um sorriso bonito, nesse momento estava realmente feliz. Depois de um trabalho bem feito tinha tomado banho, comido bem e, junto com Yoshiro, terminava a terceira garrafa de sake da noite.

-Você bebe, heim. Vou buscar mais. - Yoshiro reclamou meio rindo, tirando uns zenis do bolso como se estivesse rico.

Ela se levantou cambaleante enquanto ele caminhava para a porta:

-Vou junto. Hoje eu pago, ahaha.

Tentou alcança-lo enquanto ele saia. A mão deslisou pelas costas do rapaz dando-lhe um arrepio e ela desajeitadamente segurou o kimono, já solto, o suficiente para descobrir os ombros do ronin.
Ele se virou com uma cara brava encarando-a:

-Mas o que você ta fazendo, mulher?

Taki recuou um passo, pretendia se explicar mas o olhar se perdeu observando o peito dele. Yoshiro espera uma resposta uns instantes, ate ficar um tanto embaraçado com o silencio constrangedor:

-Ei. O que foi?

Ela levantou a mão tocando com os dedos no peito dele, junto do ombro, apontando uma marca em meio a um bom tanto de outras:

-Ficou uma cicatriz...

Ele olhou, respondendo:

-É, ficou. Talvez não tivesse mais uma se a vacilona ai tivesse lutado nesse dia.

-Se eu tivesse lutado contra Daidoji Tenshu-sama a unica diferença é que eu teria umas a mais também.

-Você sabe até o nome dele?!

Yoshiro parecia surpreso enquanto Taki se afastava, ele puxa o kimono de volta sobre o corpo escondendo a cicatriz enquanto ela responde:

-Claro. Como não saber? Não é todo dia que se vê um bushi daqueles, ele acabou com vocês três tão rápido, e ele era lindo. - Ela disse rindo.

-Que coisa horrível você falando assim de outro homem. Ele podia ter matado nós todos enquanto você ficou só olhando, né? Traidora, covarde ou ambos?

Ela da de ombros meio sem jeito, tinha seus motivos mas não achou que era hora de falar a respeito, apenas sutilmente quis mudar o objeto da conversa: 
- Podia, que bom que seu pai foi sábio em ter se explicado para ele, evitou o pior.

Yoshiro agora parecia aborrecido:

-Evitou, mesmo assim apanhamos muito e falhamos na missão. Mas você esta certa, a escolha do meu pai provavelmente salvou as nossas vidas. Ele é sábio, e esta me arranjando um casamento.

Ele levantou o rosto com ar orgulhoso enquanto Taki se continha para não parecer emburrada:

-Você vai se casar?

-Vou. Meu pai vai acertar tudo ate a primavera.  - ele parecia mais satisfeito com a reação dela, mesmo sem conseguir distinguir se o bico era ciume ou inveja. - E você vai continuar ai pensando em um samurai que não sabe seu nome? Ah, é... você não tem família. Bom, se você pedir direito quem sabe eu não ajudo, como irmão mais velho, a te arranjar um criador de porcos ou algo assim.

Ela suspira baixando a cabeça chateada. Yoshiro se agita para arrumar a 'brincadeira' se aproximando dela.

-Ei, tá, não precisa ficar assim. Você pode aproveitar enquanto eu ainda estou aqui. vamos pegar outro sake. 

Ele puxa ela junto e eles espiam para fora, visto que nem  Yoshitaka nem Yoshinori estavam ali os dois se aventuram pela casa de sake, rapidamente compram mais duas garrafas e voltam ao quarto sem mobília onde se escondiam do irmão mais velho e do pai de Yoshiro.

Voltam para se sentar contra a parede, a mente pesada do álcool.

-Você esta triste que eu vou embora?
-Um pouco.

-Minha noiva é linda e rica.

-Vai embora então.

-Vou ficar com você primeiro...

Aquilo soou inesperadamente sincero, nem era tão ruim considerando as expetativas até ali. Taki se virou de repente, tonteando do movimento rápido, ficando de joelhos na frente do ronin. Deu-lhe um beijo, curioso até, mas de pensamento distante, sabia que não teria as opções com as quais sonhava mas esse pensamento não era nada claro agora.



sábado, junho 25, 2016

RPG e a violência contra os jogadores


Quinta e Sexta foram dias bem perturbadores, em vários aspectos. Depois de conhecer um novo nível de idiota (no meu mundinho eu não tenho muito acesso a esse tipo de gente) eu achei que eu deveria escrever sobre as diferenças entre violência "física" contra em personagem de jogo (tipo quando ele é acertado por uma espada vorpal) e violência psicologia contra um jogador(a). 



Muitos GMs (homens nesse caso) não entendem que algumas coisas são perturbadoras para jogadoras/mulheres. Porque eles são homens, o foram a vida inteira e apesar de terem ganho o 'poder da empatia do jogador de RPG' (ou assim acreditam) não conseguem ver o outro lado e perceber que não estão sendo realistas, estão apenas sendo GMs RUINS por não saber lidar com a audiência feminina (ou com audiências de outras faixas etárias, mas esse assunto fica pra depois).

São GMs que esquecem que filmes, jogos, livros, etc, podem ser perturbadores e desconfortáveis mesmo não sendo 'reais'. Da mesma forma algumas cenas de jogo podem ser perturbadoras, algumas para mulheres, outras para homens.

Mas então porque as pessoas jogam? Conflito é parte do desafio e o jogo precisa de desafios para ser interessante: As pessoas reais as vezes querem uma 'perturbação' COGNITIVA (esse é o barato do jogo), mas geralmente não querem uma perturbação EMOCIONAL.

Em fim, eu achei melhor ler um pouco antes de escrever e depois de 2h cheguei a conclusão que não preciso escrever nada, já esta tudo escrito. Mas eu vou contar, bem resumidamente um evento (causo) de 2003.

Eu fui mestrar Vampiro para um grupo que não era o grupo com o qual eu costumeiramente jogava. Esse grupo tinha quatro jogadores entre 17 e 21 anos (eu tinha 22). Eu tinha jogado com esse grupo novo umas duas vezes, eles tinham um estilo totalmente diferente do meu, tínhamos uma questão de 'bairrismo' rolando entre eu e alguns desses jogadores e eles já tinham tido 'dificuldades' com umas namoradas que sentaram na mesa algumas vezes (note que isso é diferente de ser jogadora - a guria que não sabe nada e não esta nem tentando aprender, que esta lá 'esperando o namorado', a pessoa que passa as 4h da sessão perguntando 'o que eu rolo?' não é jogadora, ela esta jogadora naquele momento e depende do grupo e do mestre fazerem um bom trabalho para que ela SE TORNE jogadora).

Eu não lembro bem a aventura, foi um começo meio difícil mas eventualmente o pessoal se aclimatou, construímos aquela confiança minima que o jogador precisa ter no mestre para se permitir entrar no mundo (e aqui eu ressalvo, minha hipótese: uma jogadora confiar em um narrador provavelmente demora mais que o oposto), o meu jogo era totalmente diferente do deles. Rolamos os pontos de sangue iniciais e obviamente a noite começaria com uma caçada. Caçada para eles era sinônimo de rolar uns dados, olhar a tabela, descontar as horas gastas caçando, rolar mais dados e ver quantos pontos de sangue ganharam. Para mim... bem, pra mim envolvia toda a minúcia de 'onde você vai', 'o que você faz', 'quem você escolhe' e as consequências disso. E assim foi toda a primeira metade do jogo, em que os jogadores se espalharam e foram cuidar dos seus pontos de sangue cada um a sua maneira. Foi tenso, para uns mais que para outros, e essa tensão deixou o jogo divertido. O medo de ser visto, o receio de dar errado, matar ou não a vitima, fugir da policia, etc.

Um dos jogadores (o mais novo) decidiu que seu personagem iria a um strip club e levaria duas moças para casa. Ele me contou sobre o modelo do carro do personagem, suas roupas, classe, estilo, cobertura luxuosa etc. E eu fiz duas moças deslumbradas MAS que sabiam bem a vida que viviam, aptas a lidar com a efemeridade do luxo que na vida delas era passageiro. Fizemos conversinhas em on entre o PC e as NPCs eu notei que isso agitou a mesa, que silenciosamente ouvia tudo. Sim, eu tinha uma mesa de adolescentes e duas NPCs o quão elaboradas eu podia fazer naquela ocasião. Em fim o PC chegou em casa, acenou para o porteiro, as moças também acenaram, o carro ficou na garagem, a cena do elevador já ficou ruim porque a expectativa era que algo deveria começar a acontecer ali mesmo, mas perguntando ao jogador 'o que você faz' a resposta foi 'nada'. Subiram os três 19 andares em silencio no elevador de espelho gigante, e essa não era a expectativa de ninguém. E esse 'não faço nada' era a primeira dica sutil de 'essa cena esta ficando desconfortável' (e nem era um estupro). Eu não percebi. Sim, foi um momento mestre ruim.

Chegaram no apartamento, ele mostrou o apartamento a cena perdeu totalmente a fluidez que teve durante o carro, nessa hora eu percebi que os detalhes não eram necessários, eles podiam ficar a cargo da imaginação de cada um sem serem compartilhados com a garota que ninguém ali conhecia. Então eu perguntei de forma mais geral o que ele fazia. Ele ficou constrangido e só me dava respostas abstratas como 'faço o que tem que ser feito'. E eu fiquei super confusa porque eu não sabia se isso significava continuar com o programa como tinham combinado OU dar uma mordida em cada uma (e seria um plot separar as duas para morder uma sem a outra surtar) e sugar até desmaiarem. Eu perguntei mais umas duas coisas e ele ficou aborrecido, no fim perguntei 'você paga elas depois?' e ele disse 'só mando elas embora'. 'Só mando elas embora' me fez assumir que elas estavam conscientes o bastante para sair andando, sem serem pagas. Mais tarde ele foi sair de casa e notou que as moças tinham passado pela garagem e destruído o carro no melhor de suas habilidades mortais.

Uma parte do grupo riu, outra parte me fuzilou com o olhar e tivemos uma péssima conversa pós-jogo com direito a: 'nunca mais faça isso com o meu irmão' seguido de uma rolagem de intimidação que foi consideravelmente bem sucedida (eu nunca mais narrei vampiro para eles, apesar de alguns pedidos). Nunca ficou claro o que exatamente era o 'isso' do 'nunca mais faça isso', mas suponho que envolva constrange-lo com uma cena desconfortável e destruir o carro que, naquela ocasião, tinham um valor simbólico importante (para eles pareceu que depredar o carro foi birra minha, para mim era o simples fato de que 'escolhas precisam de consequências' e as NPCs estavam bravas por não serem pagas).

Note que eu não tinha uma birra com o player. Eu não tinha a postura pre-estabelecida de "na minha mesa, se um cara gostar de putaria as putas detonam ele". Não era algo tipo "ele é feminista, vou transformar a vida dele num inferno por isso". Foi o desencadear da história que, por inexperiência minha, e pela maturidade esperada de alguém de 17 anos, resultou em um jogo não divertido para ele.

Quando você coloca uma cena de violência, ou de estupro, na mesa (espero que você esteja jogando em um ambiente privado nesse caso, e não em uma game house) isso esta contribuindo para história ou você só esta embirrando com a jogadora? Se ela claramente diz que não quer isso no jogo e você insiste você esta sendo um mestre RUIM e uma pessoa RUIM. Você esta sendo alguém mais interessando em satisfazer seu lado sádico do que em tornar o jogo divertido. Você esta sendo alguém arrogante que acha que tem alguma 'lição a ensinar' para ela. Ou para dizer de forma simples, você esta sendo um babaca, não importa o realismo do mundo se existem elfos, ou magia, ou dragões, ou deuses, ou poderes, ou fichas e dados.

Alias, por falar em realismo, estou esperando ver um jogo em que rola um estupro e a família da moça, pai, primos, irmãos aventureiros, aparecem para dar cabo do PC estuprador, isso é bem realista também, mas seu realismo, e sua 'super empatia de RPGista', vão só até onde convêm, né?

quarta-feira, maio 04, 2016

Playing Experience - Asahina Yukimi I

O Jogo:
Eu joguei online com essa personagem por dois anos (2013 e 2014), em uma comunidade americana chamada FiveRings Online, eu especificamente joguei o FRO6 - Empire of Shadows.
O jogo estava disponível permanentemente, haviam cerca de 130 jogadores ativos, vários mestres e praticamente era só conectar a qualquer hora do dia ou da noite e RolePlay. Eu tive momentos de pouquíssima participação (no primeiro trimestre principalmente) e outros de participação intensa (de acordar e dormir pensando no jogo).
é difícil quantificar o tempo que dediquei ao jogo, ele tomou proporções de MMO em vários momentos.
O jogo se iniciou em Toshi Ranbo, Moto Chagatai ataca a cidade Imperial na ausência do Imperador, seu real intento era obrigar Toturi Kaneka a assumir o trono para poder liderar a defesa da cidade apropriadamente, e ele consegue isso. Kaneka se torna imperador e nesse momento o jogo começa.

A personagem:

Asahina Yukimi é uma shugenja tímida, tímida o bastante para eu poder representa-la adequadamente em um ambiente onde não falavam minha primeira língua :P então, trata-se de alguém que raramente tinah algo a dizer, e quando tinha raramente conseguia organizar-se mentalmente a tempo de faze-lo. Mas acontece assim mesmo com quem tem muito ar, pensamentos fugazes. Ela chega em Toshi Ranbo depois da guerra, para ajudar a reconstruir e trabalhar para a Garça. É uma artesã medíocre e uma shugenja medíocre a principio.

E é assim que ela começa o jogo.



A Experiência:
Esse foi um dos jogos mais interessantes que eu já joguei, apesar do jogo deixar muito 'espaço para interpretação' foi a minha melhor experiência no que se refere ao desenvolvimento e transformação do personagem, tanto mentalmente quanto em termos de ficha (eu terminei o jogo no Rank 6 praticamente).

Eu vou resistir a tentação de contar o longo jogo e falar sobre a experiência de jogar com essa personagem que rapidamente tomou forma e personalidades muito claras na minha mente. Era essencialmente uma pessoa boa, capaz de atos de revolta graves (devido ao poder que ela juntou ao longo do tempo) mas que frequentemente vinham seguidos de muito arrependimento. Deve ser o meu personagem mais inseguro e frágil, provavelmente incompetente para as posições que foi forçada a assumir (ela terminou o jogo como Daimyo da família Asahina, o que muito me orgulha mesmo assim :P)

Asahina Yukimi por 69XuXu69
O personagem tinha pretensões bem simples, servir o clã com conselhos amenos, com a arte do tsangusuri e com filhos, sendo uma boa esposa. Por um acidente do destino ela acabou na corte, se envolveu na guerra, matou Daigotsu (2x), salvou a Imperatriz (filha do Kaneka) e virou daimyo, resumindo bem.
Mas não foi um trajeto fácil, ele foi repleto de perdas difíceis e de rompimentos em afetos que nunca chegaram a se concretizar totalmente, ou seja, rompimentos no processo de se encantar com algo e com alguém. Isso foi muito sensível no jogo porque eram vários players, o contato dela com os outros personagens também era o meu contato com os jogadores desses personagens e quando eles morriam eles mudavam de nome, eu perdia o rastro da pessoa e as conversas em off também eram interrompidas. A sensação de perda foi mais forte que em qualquer outro jogo e era agravada pelo fato de, em muitos casos, ela se sentir responsável por algumas baixas.

Eventualmente aconteceu dela conseguir se casar com um Daidoji que era um PC muito ausente do jogo. O personagem Daidoji também não recebeu nada bem a satisfação que ela demonstrou com o noivado e os recorrentes presentes que ela mandava. Acabou sendo uma relação distante que fez a personagem se sentir muito solitária, em vários momentos ela teve a chance de definir o futuro do clã sozinha (podia ouvir os outros PCs, e em geral eu fui democrática por estarmos jogando juntos, mas se na hora H a Yukimi falassse diferente, já era), foi outra experiência de poder interessante, mas com a responsabilidade de definir o futuro do clã mais que o dela própria, ela podia ter ido melhor nisso, eu frequentemente me arrependo de muitas coisa que não fiz e que eu não disse nesse jogo.

Asahina no Daidoji Yori e Asahina Yukimi por 69XuXu69
Na verdade por muitos momentos eu acabei deixando a personagem ser apenas um porta voz dos demais membros da Garça na corte e a personalidade dela ficou bem subjugada as discussões que os jogadores tinham em off. Eu me arrependi de não ter posto o meu RolePlay a cima disso e ter experimentado mais com a minha oportunidade de mudar o mundo, segui os outros players e o mundo mudou muito pouco em relação ao canon nos aspectos que eu estava envolvida. :(

Ela teve quatro filhos que infelizmente não apareceram na história praticamente. Eu realmente sinto falta de personagens com relações familiares mais desenvolvidas e bem exploradas, e o Yori era, na maioria dos momentos uma figura distante e fria, apesar de uma ou outra cena mais amenas ou intensas terem acontecido (ainda bem, pelo menos os filhos tem explicação).


Asahian Yukimi e Asahina Yori por PagodaComics
No final do jogo ela teve que defender Shinden Asahina de um ataque das Shadowlands, uma batalha que terminou em uma vitória pifia devido a insistência dos bushis em combater enquanto vários shugenjas recomendavam salvar o que fosse possível e correr. Depois de muitos anos de corte ela surgiu nessa guerra como um personagem inesperavelmente poderoso (eu basicamente impedi o TPK sozinha em modo 'baralho azul' - "eu não dou dano, mas o inimigo também não") já que ela estava desde o começo do jogo. Foi um momento de realização para mim jogar com uma ficha rank 4, e pouco depois rank 5 na batalha do trono para defender a Imperatriz :)
Rokugan terminou esse jogo bastante devastada, um final épico mas triste para quem vê o cenário depois do letreiro.

A quantidade de arte deve sugerir o quanto eu estive emocionalmente envolvida com essa personagem. Teve muita frustração envolvida também, mas foi um jogo bom apesar disso. No final ficou a sensação de alguém que cumpriu o destino apesar dos desejos pessoais buscarem outro caminho, é um daqueles momentos que quando você olha a história como um todo você percebe que foi bom que algumas coisas não deram certo e não saíram como você queria.  Evidentemente é uma história triste ainda assim, em que a lista de potenciais amigos que ficaram no caminho é gigantesca, algo que raramente acontece em jogos de mesa.

Aiko (gata branca), Yukimi, Tenbun (gata 'ruiva') e os filhotes da Tenbun. Yukimi herdou as gatinhas do Kitsu Neji e do Kaisen depois da morte prematura de ambos os samurais. Arte por Chairim.






sexta-feira, março 18, 2016

Playing Experience - Elarinya Goldstorm

Acho que nunca conheci um RPGista que não gostasse de falar sobre o próprio personagem e as próprias aventuras. Alguns são mais comedidos, outros falam mais aberta e fluidamente. Eu geralmente ouço mais que falo, mas eu gosto de guardar as memórias.
Eu também acho que podemos ter experiências enriquecedores, e seguras, através dos personagens. O que eu vou tentar fazer é contar um pouco do que eu pude experienciar com cada personagem.

Asahina Yukihime é certamente o meu personagem atual mais querido, acho que ela foi muito bem sucedida em expressar o que eu queria (e precisava), sem se dobrar a vontade dos outros. Ela disse o 'não' - polido, delicado, Rokugani - mais importante dos últimos anos da minha vida. Ela tinha um comportamento protocolar, o que significa que provavelmente só eu conheço de verdade as intenções e o amago da personagem, mas é o suficiente para mim. Nesse caso talvez seja até melhor assim.

Mas eu vou falar da minha experiência como Elarinya, a personagem mais recente. O jogo de D&D 3.5 durou de outubro de 2015 até o fim de semana passado, meados de março de 2016. Foram 27 jogos de cerca de 8 horas de duração cada.
No começo do jogo Elarinya tinha um irmão gêmeo, que era personagem de outro jogador. O jogo começou com um cena dos personagens crianças, onde os personagens jogadores tiveram a chance de decidir sobre poupar a ceifar a vida de um filhote de dragão. Optaram unanimemente por poupar o dragão que então se tornou um antagonista menor, que buscava manipular a gentileza os personagens para se vingar do ataque sofrido.

Elarinya e o irmão rapidamente se distanciaram em matéria de valores e conduta, como é esperado em jogo. Os pais dos personagens apareceram em cenas rápidas ou via carta, de forma que ela e o irmão não tinham um senso real de infância em comum, assumo que simplesmente não compartilhavam as mesmas brincadeiras.

O relacionamento com o irmão foi pobremente explorado no jogo, até porque a composição da mesa não favorecia isso, e no final esse jogador acabou deixando a campanha relativamente no começo da história.

Elarinya é uma gestalt Wizard/Cleric, clériga de Hanali, deusa do amor, beleza, sensualidade, desejo e temas que me assombram um pouco em jogo. No começo eu me sentia bem ridícula como 'clériga do amor', e na verdade nunca foi fácil representar essa parte do personagem publicamente, por mais que eu tenha pensado alguns bons discursos e argumentos sobre o valor do amor. Foi um exercício interessante, de certa forma subjugar a racionalidade (que eu naturalmente valorizo mais) à alguns impulsos afetivos. Novamente, isso poderia ter sido uma experiência incrível, mas não foi bem explorado, em parte pela minha inibição, outra parte porque o jogo tinha outras necessidades. 

Aqui nós temos os personagens que iniciaram a campanha, Príncipe da Coroa de Ouro; Kolvar Stormbringer (NPC), Lord Sudryl Diskchaser (NPC), Lady dos Avariel Odete (PC), Lady Anyllan Sunburn (NPC - irmã do Arquimago evocador, Lord Zaor), Elarinya Goldstorm (PC), Harael Goldstorm(PC) e Seith Waveedge(NPC). - Arte pela Olga Hazin.

Eles estão usando uniformes da academia arcana, azul para o Abjuradores e vermelho para o Evocadores, o Seith é um Ilusionista, devia usar amarelo mas ele é too cool for school e não usa uniforme.

O tempo na academia arcana foi uma grande 'intro' para o jogo, permitindo aos players se familiarizar com o mundo e com a situação na qual estávamos imersos. Essa situação era uma releitura da 1a Guerra das Coroas de Forgotten Realms, um conflito que envolve a vontade dos elfos mortais e a vontade dos deuses.
Elarinya se envolveu nesse conflito completamente por ser clériga, e pela tentativa de 'acabarem' com Hanali, 'aprisionando-a' na forma de deusa Trina (junto com Sehanine e Aerdrie), isso obviamente representa uma mudança tão profunda na fé que em alguns momentos, quando Hanali estava presa/em forma de deusa trina, Elarinya não tinha acesso aos seus poderes de clériga. Em on objetivo dela era fortalecer a fé, através da qual ela poderia fortalecer a deusa, que de fato, nessa versão do mundo, não virou deusa Trina (ao menos não ainda). É muito divertido afetar o mundo dessa forma tão profunda, especialmente porque eu conhecia a história oficial relativamente bem e podia ver o quanto meu personagem estava mudando tudo aquilo.

E a Elarinya cresceu ao longo do jogo, para as formas mais sinuosas que se poderia esperar da Sumo-sacerdotisa de Hanali Celanil, algo que ela veio a se tornar depois que sua catedral foi atacada e várias clérigas foram mortas.
Elarinya - Arte por Esther

O jogo começou a ter um fundo de frustração conforme a história andava, a vontade dos deuses se revelava e alguns personagens ficavam meio perdidos no processo.
Durante as primeiras tentativas de reforma religiosa, que buscavam fundir as três deusas na entidade trina, o Príncipe Kolvar logo se colocou como defensor da antiga fé e da deusa Araushnee em particular. Por um motivo ou outro todos os personagens optaram por seguir o Kolvar e a história tomou esse rumo.
No âmbito politico havia uma guerra entre a coroa de ouro e a coroa de ferro, uma vez que o rei dos elfos de ferro não havia deixado um herdeiro e os nobres da coroa de ouro se consideravam a linhagem de direito. Porem, os Reis são a vontade do deus Corellon, e a religião que legitima o poder desses regentes. Assim o Kolvar foi mandado em uma missão suicida para tomar a coroa de ferro, os personagens o seguiram e tornaram a missão menos suicida. Mas a busca não foi fácil, envolveu uma luta por poder e muitos sacrifícios, a maioria deles de inimigos, algo que não incomodava Elarinya mas era critico para outros personagens. 

Ela supostamente teve um relacionamento com o Sudryl, eu digo supostamente porque ela pediu ele em on, durante um jogo (apesar de não ter outros players nessa cena). Algo meio inconcebível pra mim, porque eu acho que nunca faria isso no mundo real. Ela teve que insistir um tanto, isso foi interessante, quase lembrou aquele frio na barriga de pré-adolescente, quando você se torce de ansiedade para saber se alguém gosta de você ou não. Logo o NPC, com ressalvas, concordou. Depois de um tempo o mestre disse que o NPC concordou só para eu não me frustrar (apesar da minha frustração não ter sido levada em conta em váaaaaarios outros jogos, mas não vem ao caso). Ter me dito isso meio que derrotou o proposito de ter permitido ao NPC aceitar a proposta, azedou um pouco o gosto da experiência. Eu preferia uma experiencia autentica, nem que fosse um fora autentico, acho que um clérigo do amor teria muito a aprender com rejeição.
Em off, só posso dizer que 'acontece', como GM eu já estraguei coisas que eram importantes para os players também, infelizmente. Conversamos sobre o relacionamento dos personagens algumas vezes mas nada apareceu em on que desse legitimidade a isso. Uma pena, o plot do amor, desejo, afetividade tinha tudo ha ver com a personagem, mas não rolou, novamente, em parte por inibição minha. E era uma baita oportunidade de lidar com um tema que eu evito (quando eu falar dos outros personagens talvez uma certo "padrão" emerja).

Eu esperava que tivesse sido um personagem cheio de amor e sentimentos leves, por um tempo no começo do jogo até foi (tudo correu de uma forma que era possível gostar muito do irmão mesmo ele pensando de forma muito dispare a da Elarinya), com o avanço do plot eu sempre passo pela frustração de me ver esperando o grupo. Isso é legal depois que eu penso no jogo mas no momento do jogo eu sou tomada de uma ansiedade monstra, é um sentimento meu, não do personagem. Lembra muito ansiedade de criança antes da excursão da escola e é o tipo de sentimento que sobrevive em relação ao jogo mas eu já não tenho no mundo real.

Em um momento muito tenso a Elarinya deu um discurso antagonizando com o grupo todo, eu não sabia o que iria acontecer dessa cena, se ela fosse desafiada por mais de um PC ela não teria como se impor totalmente, se rolasse iniciativa o clima poderia ficar pesado em on off. Embora a personagem devesse falar com a confiança de um nobre que foi educado para liderar a vida toda eu estava com a voz e as mãos tremulas. Acho que esse foi um passo importante no sentido de 'fazer o que o personagem tem que fazer', algo que muitas vezes eu evito em prol de manter o clima do jogo ameno. Ninguem ficou muito feliz mas, por um tempo, as coisas saíram como a personagem queria, tive a momentânea sensação de poder e de respeito, o que foi muito legal, especialmente porque não veio endossada pelo mestre, mas sim pelo grupo. Penso que as vezes, na medida do possível, devíamos ser mais generosos em proporcionar aos nossos pares algumas experiências assim.



quinta-feira, março 17, 2016

A Raposa: Ao longo do tempo...

A Raposa filhote imaginava a Raposa adulta de uma forma muito especifica; Ela se vestia elegante, tinha o cabelo bonito, usava salto no dia a dia, mas não muito alto. Trabalhava bastante, não especialmente gostava do que fazia mas tinhas os resultados, wow, impressionantes! Ela não era especialmente feliz, mas sorria bastante.
A Raposa filhote não sabia o que a Raposa adulta fazia, acho que nenhuma delas sabe até hoje.
A Raposa adulta não era casada, mas morava com alguém, era tipo um sócio. Alguém inteligente, com um trabalho interessante também. Alguém para conversar no jantar, em uma mesa de vidro redonda, com lustres do tipo pendente em cima e taças de vinho. No mais, cada um tinha sua vida e muita liberdade, dentro dos horários. Sem filhos, sem cachorro, tudo limpo, arrumado e racionalmente decidido o tempo todo. Com algumas viagens anuais para o exterior, bem organizadas. 

Alternativamente; ela podia ser astronauta.

A Raposa filhote era realmente clueless, porque nada na vida dela, nunca, sequer insinuou a direção de ser essa Raposa adulta que ela pensava. Nem os pais ela eram! Nem ninguém que ela conhecesse era.

A Raposa filhote cresceu, mas não muito. Ela comprou todos os brinquedos que a Raposa filhote queria. Saiu de mochila, e queria sair mais. Odeia horários. Ela usa tênis e só recentemente trocou as camisetas por 'umas blusinhas', o cabelo é bagunçado e fazer as unhas é a coisa que mais lhe da aflição, então ela quase nunca faz. Ela não saiu muito elegante. Não sobrou muita independência e a liberdade é toda limitada pela responsabilidade com os outros, e com os sentimentos dos outros. Nunca foi planejado que os outros viessem com sentimentos, era para virem com racionalidade, mas todo mundo vem com os dois, e com mais um pouco de outras coisas também.
A Raposa, que não é filhote e não é adulto, como acontece muito na geração dela, tem dois gatos, dois cachorros ( <3 ) e um namorado (por enquanto). As conversas bacanas vem e vão, as vezes estão, as vezes não. Ela estudou um monte de coisas, passou no vestibular quatro vezes mas só fez uma graduação (por enquanto), ela acha que não sabe nada e precisa de mais vários cursos, mesmo que não dê para saber tudo.
Ela teve vários trabalhos, alguns muito legais, e descobriu que quase nunca alguém quer ouvir sobre isso. Ela conheceu muitas coisas felizes e tem a pretensão de repetir algumas e conhecer várias outras. A casa é alugada, sem mesa de vidro ou lustres, mas os sonhos ficaram muito, muito maiores!

quarta-feira, dezembro 02, 2015

Mask



Eu olho para trás
Um hall de mascaras abandonadas
E me sinto tentada
A te usar outra vez



domingo, outubro 04, 2015

Internet do Facebook

Eu conheci muitas pessoas pela internet. Muitos que se tornaram apenas contatos de facebook, mas também muitos que se tornaram bons amigos, daqueles que você encontra raramente, quando a “vida de trabalhador adulto” permite, mas que ainda assim sempre é bom encontrar. 
Eu conheci muita gente conversando em chats aleatórios, gente que tinha algo há ver, gente nada há ver também. Conversar era uma das coisas mais legais para se fazer online. Conversar com um nick random, as cegas, sem saber, e graças aos céus muitas vezes sem se importar com gênero, raça e todas essas coisas. Era a melhor parte da internet.
Vão dizer que eu sou saudosista - eu sou, é verdade - mas hoje a internet virou o lugar em que é bonito odiar, “tocar o foda-se”, excluir alguém por causa de partido, de religião, de opinião. Virou o reino da intolerância onde não se constrói nada positivo a partir de posicionamentos diferentes, apenas segregação.

Eu gostava de não saber, eu gostava quando não importava se as letras que brotavam na minha tela vinham de branco, negro, gordo, magro, doente, gay, hetero, horda ou aliança. Me sinto como alguém que teve a sorte de experimentar um mundo onde nada disso importava. Alguém que pôde se surpreender com cada um dos contatos que conheceu pessoalmente sem ter visto uma única foto antes. Alguém que não fugiu de nenhum ‘IRContro’ porque já conversava tanto, já tinha tanto em comum com as pessoas, que as aparências não importavam mais (e eu sou péssima em nota-las também; "a pior fisionomista que existe", me dizem).

Eu gostava de começar conversas falando sobre música, filmes, RPG, esoterismo, mitologia, o jornal de ontem. Coisas nas quais não sou expert, e deixar a coisa rolar. De conversar com gente que também não se importava em saber se eu era mulher ou homem (eu raramente respondia quando isso era perguntado).

Recentemente eu tive uma experiência interessante conversando com um vendedor do eBay, com quem puxei assunto meio casualmente depois de fazer uma pergunta em um dos itens que ele estava vendendo, e eu acabei comprando. E nos trocamos várias mensagens e conversamos bastante, até o negócio ir para o Facebook, onde a conversa se transformou em eventuais likes timidos e um grupo de jogo em comum.

O Facebook é esse espaço meio público de mais, onde ninguém consegue achar seu papel. Você  tem que ser o filho, a mãe/pai, o profissional, o primo descolado, o amigo, a pessoa que você gostaria de ser e mais um monte de coisas, tudo porque você está, inevitavelmente, exposto a todos os seus círculos sociais ao mesmo tempo, de uma forma que nunca aconteceria na realidade. Na realidade ninguem tem que desempenhar todos os seus papéis ao mesmo tempo. Alguns são simultaneos as vezes, e já não é facil.


Eu sinto falta da internet sem foto, sem rotulo, sem idade. Da internet onde você tinha que conversar com as pessoas para conhece-las, não fuçar a wall delas e tirar conclusões (muitas vezes equivocadas). Da internet onde as coisas não aconteciam do mesmo jeito que acontecem no mundo real.


domingo, julho 26, 2015

Minha experiência da semana e por que algumas garotas não jogam RPG

Essa foi uma semana privilegiada, foram quatro jogos, eu vou comentar três especificamente. Por sorte também foi uma semana reflexiva e eu consegui observar algumas coisas durante esses jogos. Não que eu pretenda decifrar algum mistério do universo nesse post, mas eu acho que começo a vislumbrar um dos motivos para algumas pessoas acabarem perdendo o interesse pelo RPG (quando se dispõe a tentar).


Quarta teve Adventurers League, foi meu decimo sétimo jogo na Geek House com o pessoal da RolePlayers e foi exatamente o quão bom um jogo de 2h pode ser. O mestre era bom e o D&D Next é o D&D Next. O interessante dessa quarta-feira é que teve uma outra garota no grupo. Uma que não fui eu que levei. Já joguei com outras garotas na Adventurers League, já vi algumas em outras mesas, mas antes todas as que jogaram comigo eram minhas amigas, que eu convidei, arrastei até lá, e que por sinal jogaram uma ou duas vezes e nunca mais voltaram :P

Foi bom ter outra garota na mesa, bom de um jeito bem subjetivo por que nossa interação foi zero. Nossas personagens fizeram exatamente dois ataques cada uma durante o jogo e absolutamente nada mais, eu falei alguma coisa que ninguém ouviu, ela não falou nada, ou se falou ninguém ouviu também.
Eu comecei a reparar que, dependendo dos outros players da mesa, as pessoas mais comedidas simplesmente não conseguem jogar. Assim que o mestre termina a descrição, e as vezes até antes, dois dos nossos companheiros já estavam disputando a palavra e fazendo sete ações por rodada. A menos que o mestre explicitamente nos desse a palavra jamais teríamos a menos chance de fazer algo naquele jogo. Claro, alternativamente poderíamos sair falando e torcer pro resto calar a boca, dar uma chance, e ouvir, o que não aconteceu nesse dia e no meu caso nunca vai acontecer. Por que não? Por que a minha noção de boa educação sugere que eu devo deixar quem quer falar falar.
Foi um bom jogo, os dois ávidos jogadores representavam legal, ri bastante, mas praticamente não joguei. Se tanto eu quanto a minha colega estivéssemos apenas assistindo o jogo muito pouco teria mudado.
Eu me permito supor que nem todas as garotas pessoas tímidas ficam contentes de só assistir um jogo enquanto seus companheiros não dão a menor chance delas se pronunciarem. Eles não faziam por mal também, eram apenas pessoas empolgadas com o jogo e ansiosas mas, esse me parece ser um dos motivos possíveis para algumas garotas se afastarem do jogo.

Sexta-feira, o jogo pela Internet.
O jogo pela internet tem a parte boa de você ser livre para escrever, sem estar cortando ninguém. Eu consigo fazer mais ações e representar melhor escrevendo, até por não ter que “encenar” nada, apenas descrever com texto. Porém eu já gostei mais de jogar online. Com o tempo os jogos online se tornaram uma fonte de eventos traumáticos. Tudo que pode dar errado em um jogo de mesa consegue ir vários, váaaarios, níveis mais baixo em um jogo por texto na internet.
O jogo era D&D 3.5, a aventura trata das Crown Wars, é um momento de guerra civil e religiosa entre os elfos e esta começando a se formar o grupo que no futuro se tornará conhecido como drow, seguidores de Lolth. 
Talvez seja a falta de entonação de voz no jogo por texto mas um dos players simplesmente não consegue entender sarcasmo e ironia. Meu personagem revira os olhos e diz “Ahan, isso é uma óoootima ideia”, e o player em questão abre um PVT para me explicar por que não é uma boa ideia. e como eu estou "jogando errado". As explicações obviamente vem com coisas como “se liga” ou “você esta entendendo?”. Essa não é a pior coisa que pode acontecer com alguém na Internet mas é chato mesmo assim.
Lá pelas tantas o matriarcado, tipico dos drow, foi mencionado e eu apenas me arrependo de não ter dado print na explosiva demonstração de misoginia que eu assisti na sequencia.
Engraçado é que eu não dava a minima para essas coisas antes, eu não percebia elas, acho que tenho andado com más companhias ultimamente :P
No final eu também desanimei do jogo e voltei ao modo default em que só participo quando o mestre efetivamente me passava a ação, o que em geral significa jogar pouco.
Eu achava que ter alguém te antagonizando, mesmo que não intencionalmente, não era um problema mas, acontece que é um problema sim. Pode ser divertido por um tempo, mas se acontece sempre entre as mesmas pessoas começa a ficar desagradável e embaraçoso o bastante para valer a pena mudar de grupo, ou de hobby.

E por fim, o jogo de ontem, sábado;
Foi uma mesa de Lobisomem - O Apocalipse só com jogadoras. Eu fiz questão de participar pelo ineditismo da experiência; uma narradora, cinco jogadoras. Uma alcateia inteira da mesma tribo (o que eu considero um grande sucesso) com um augúrio para cada personagem.
O jogo demorou bastante para começar e é impossível não mencionar que começou com uma consulta aos espíritos da moda, sim espíritos da moda, para os quais foi ‘sacrificada’ uma carteira de alguma marca famosa e cara (isso esta fora do alcance dos meus conhecimentos, a marca foi mencionada mas eu não vou passar no teste para lembrar). Para ficar mais estereotípico só se tivéssemos sacrificado um par sapatos para, deixa eu reforçar, os espíritos da moda.
Depois veio o almoço “de negócios” com o NPC fodão, por isso as instruções do espirito da moda foram valiosas, fazer uma boa impressão era essencial. Esse inicio de jogo me causou um estranhamento a principio mas logo consegui encarar isso como uma outra dimensão do jogo, algo revelador, não só sobre os personagens mas sobre as jogadoras, uma coisa que enriquece a experiência, não era apenas “vamos bater em algo, rápido!”. 
Evidentemente também tivemos que bater em algo, o inimigo da vez era uma bola de cabelo, como aquelas que sobram no ralo depois do banho e entopem tudo se você não limpa. Uma bola de cabelo mal cheirosa, com lodo e garrafa pet, saída direto do fundo do rio Tiete. Sério, nada poderia causa mais assombro no público desse jogo, é a extrapolação da realidade de forma que todo mundo podia sentir o ‘drama’ do negócio. Me assustou o fato de ser tão fortemente ligado a uma tarefa doméstica mas foi eficiente em causa nojinho, mais eficiente que os gore de muitos outros jogos.
No fim matamos uns dançarinos e salamos nosso caern. Foi um jogo one shot com pouquíssimo Role-Play e muita conversa em off mas que conseguiu contar uma história completa em uma cadencia agradável.
Todas as meninas conseguiram falar. Algumas mais, outras menos mas, ninguém ficou sem participar do jogo. Fosse em combate ou em planejamento todas se manifestaram. Eu por sinal me sinto culpada pelo maior crime da mesa; arrombei a porta que que a ragabash poderia ter aberto com skill/dom/truque apropriado (quando eu jogo de rogue eu odeio perder a chance do open lock, quem diria, justo eu, meti o pé na porta dessa vez =o.o=).
O jogo tinha um proposito social muito claro, que foi atingido eu acredito, e além disso foi divertido.

Bem, eu penso que um mestre homem não teria feito um ‘espirito da moda’ útil, eu penso que uma garota talvez nem tivesse dito isso em uma mesa diferente dessa. E confesso que a principio eu mesma achei a ideia esquisita mas ouvir a ideia foi bom para os meus próprios paradigmas. Ter visto a ideia funcionar e a forma como a Eva (narradora) conduziu o efeito foi melhor ainda.
Em fim, acho que a primeira coisa para ter uma jogadora (e jogadores tímidos, e vários tipos de pessoas) na mesa é criar um clima confortável, onde as pessoas tenham chance de falar e não sinto receio de faze-lo. Manter a mente aberta é fundamental.

domingo, abril 26, 2015

Pôneis em casas novas ^_^


Recentemente eu vendi um pônei G3 para uma pessoa no Facebook. Foi um dos pôneis mais baratos que já vendi, era a Starcatcher que deveria mudar de cor mas já não mudava, esta sujinha e meio largada aqui em casa.

A pessoa me avisou quando recebeu o pônei, o que é bem legal, muita gente não avisa. E já mandou junto a foto dos primeiros socorros.
"Olha quem chegou aqui hj *^*" 



E junto ela me escreveu "Eu limpei ela, ai tirei as manchas de sujeira to tempo, ai raspei as partes arranhadas, no cabelo eu penteei , ai lavei com condicionador, sequei, ai tava meio umido passei um pouco de creme e passei prancha, no corpo começei a tirar a tinha que muda de cor, ta muito danificada, resumindo *^* estou amando ela. "



Alguns dias depois recebi outra foto:


É feliz quando os pôneis vão para boas casas, se fosse assim com todos eu venderia mais dos meus próprios, como essa era. Eu mesma não tenho todo esse tempo e atenção para eles.

E por falar em pôneis de casa nova. Hoje eu finalmente abri a Nurse Redheart que recebi umas semanas atras. Ela esta pronta para se juntar a manada:

sexta-feira, março 27, 2015

Acidente na rua

"Hoje eu estava indo para o trabalho...  eu virei a esquina e estava descendo a rua. No meio do quarteirão um rapaz passou correndo por mim. O farol fechou e um caminhão parou, o rapaz continuou correndo até entrar na frente do caminhão, então ele começou a gritar com o motorista. Eu passei andando, demorei um pouco para entender o que ele tava gritando. O ouvi dizendo "Você não viu o que você fez la em cima?! Volta e vai prestar socorro!". Eu olhei pra cima, a rua é quase uma ladeira, não vi nada, continuei descendo. O caminhou começou a tentar dar ré, outros carros tinham parado atras, o farol abriu, buzinas, eu continuei andando. Eu não lembro de nenhum deles, nem do motorista, nem do cara que gritou. Eu vi os dois mais não lembro... eu acho que o caminhão era verde. Duas horas depois outra colega chegou no trabalho, ela veio pela mesma rua, falou sobre o sangue no chão.  Sei la porque isso ficou na minha cabeça o dia todo, agora achei a noticia; Uma mulher de 40 anos morreu e ninguém sabe do caminhoneiro..."

[22:28] <Tyrans> Que
[22:29] <Cedric> true story?
[22:29] Raposa num momento oversensitive o.o
[22:29] <Raposa> Yup
[22:30] <Raposa> http://www.diariosp.com.br/noticia/detalhe/79917/mulher-morre-nesta-sexta-atropelada-por-caminhao
[22:30] <Raposa> http://noticias.r7.com/sao-paulo/mulher-morre-atropelada-por-caminhao-nos-jardins-27032015


Eu entrei no mIRC para desabafar quase. Eu não vi o acidente em sí - embora possa inferir o que houve, não acho que eu poderia ter feito algo a respeito, mas enquanto eu descia a rua eu pensei em perguntar, em voltar, mas eu não fiz nada. Acho que nem seria capaz de reconhecer as pessoas que vi essa manhã. Eu não deixo de me perguntar, se fosse um caso em que eu poderia ter feito algo, será que eu teria feito? Eu não sei...

domingo, março 22, 2015

Um menino perguntou...

Um menino perguntou à sua mãe: "De onde vim? Onde você me encontrou?" Entre lágrimas e sorrisos ela respondeu, apertando seu pequerrucho contra o peito: "Você estava escondido em coração como desejo, meu querido. Você estava na boneca dos meus jogos infantis". (Rabindranath Tagore)

Tagore é um poeta, embora para nós ocidentais os textos dele possam soar como essa "sabedoria de auto-ajuda", talvez por que exista muita sabedoria na poesia em geral, ela só é difícil de ver, não procuramos por sabedoria na arte, quando muito procuramos por beleza ou por sentido.

O quotei o textinho a cima do Felizes e Brincalhões (Bomtempo e Going, 2012, p.105), segundo esse livro o texto chegou a elas através de outro, do Vygotsk, só que estava faltam a referencia referenciada :P Todos os professores deviam ser mais tolerantes com esse deslize clássico.

Eu estou finalmente fazendo a disciplina da professora Edda Bomtempo, com uma turma pequena mas muito interessate e bem diversa. Muito legal.

sexta-feira, dezembro 12, 2014

Angústia "virtual"

Eu entendo como é facil sentir-se deprimido diante da Internet. Eu sento na frente do PC e fico tonta com tantas coisas, com tantos mundos reais e imaginários para se explorar, da literatura de fantasia aos artigos cientificos, tanto conhecimento, tanta coisa para aprender que eu nunca vou saber.

Eu sento no PC e não sei por onde começar, ou onde e quando terminar, e dá uma agonia tão grande, dá a ideia de que estou mergulhando na ‘teoria do mundo’ e quanto mais fundo eu vou menores são as chances de experimentar essas coisas na prática. Por que a Internet toma tempo também. E cada dia lendo um monte de coisas é um dia que eu não viajei, que eu não fiz algo emp rol de viajar, que eu não conversei com uma pessoa nova, que eu não brinquei com o meu cachorro apesar de ter lido sobre várias cachorros e ter visto fotos de inúmeros gatos.

É angustiante.

Hoje eu li um artigo em espanhol sobre genetica, li um artigo muito bom do The Guardian, When Data gets Creep com vários links para várias outras coisas interessantes. Li que a água do 67P é diferente da água da Terra, o que avassala algumas teorias. Li sobre o estilo Neo-Noir, que me remeteou ao Cowboy Beebop e descobri que existe o Cowboy Beebop UT, que eu não assisti ainda. Eu li e-mails, calendários de atividades da USP e da UFSC, um pequeno conto que escrevi e do qual já não me lembrava, os slides da aula, news feed do Facebook.

Enquanto eu escrevo isso eu estou lendo um artigo super legal sobre os generos literarios que os leitores mais provavelmente lêem até o final, e sobre como ‘grandes’ best sellers são deixados pela metade por boa parte dos seus leitores.

Listando agora me ocorre que eu leio bastante até, eu leio muito mais do que eu mesma imaginava. Eu não li nenhum livro esse ano, embora eu tivesse vontade de faze-lo. A internet come todo o meu tempo, com textos pequenos, um link por vez.

Mas por mais que eu leia, não é o bastante, a pilha só cresce, as pessoas não param de escrever. Muito pelo contrário, mais e mais pessoas começam a escrever. É bom que continuem escrevendo, é impressionante quanto conhecimento se pode produzir, transmitir, inventar (e quantas bolas foras se pode dar também), quantas coisas bonitas, artisticas, ou engraçadas as pessoas conseguem imaginar. E eu me sinto ficando para tras em uma dolorosa tentativa de acompanhar esse ritmo. Da medo.

Da também uma saudade desconhecida de um tempo em que o nosso mundo era tão pequeno que a maioria de nós podia, de fato, saber tudo. Saber tudo é uma experiencia que eu nunca vou ter.

segunda-feira, dezembro 08, 2014

Ashes to Ashes and Dust to Dust

(conto escrito pelo kas)


Eram quinze para as sete e já estava ficando escuro. Os roncos dos trovões a distância deixavam a impressão que iria cair uma baita tempestade, mas mesmo assim os dois engravatados desciam as escadarias do prédio decadente e velho. Iriam pegar um belo trânsito ao voltar, com certeza.
—Lugarzinho, hein? Isso é cheiro de mijo, isso é cheiro de mijo com certeza, mijo de rato.
Sem resposta, o outro homem apenas descia a frente, mais resoluto, um lance de degraus. Agora a lâmpada estava queimada e como era um nível subterrâneo ficava bem escuro, quase ocultando o que seria um nítido símbolo arcano pichado em preto em uma parede. Um mendigo, jogado ao chão, talvez morto ou dormindo profundamente, obriga os dois a um pequeno salto por cima de seu corpo.
—Ai meu Deus... Vamos voltar.
—Volta, fica, faz o que quiser, caralho! Só vê se cala a boca!
—Porra, qual é a sua Ramirez? Vim aqui, justamente para dar apoio tático e você fica todo cavalinho?
—Eu já estou nervoso e você fica de frescura, me deixando mais nervoso ainda.
Os dois chegam de fronte a uma porta de madeira; aquele que vinha a frente respira fundo e fala com um tom baixo, para si mesmo:
—Segundo subsolo, quinta porta. Sem número... É aqui. É... Lá vamos nós...
Ele leva a mão para bater na porta, mas se detém, a mão treme. Ramirez não conseguia, suor escorria pela testa e os olhos ficavam fixos na madeira. Porém, o outro homem, de cabeça baixa, bate na porta. “É, agora não tem volta” pensava Ramirez.
Ao baterem na porta, viram que ela não estava tranca e nem ao menos fechada, o simples toque dos nós dos dedos a abrira quase até a metade. Dentro uma sala escura e fria os aguardava. Era como que uma sala de espera de um dentista, ou oftalmologista ou qualquer escritório, mais ampla, com várias poltronas. Uma televisão velha desligada acumulava pó em uma das paredes. Alguns vasos de flores talvez tivessem dado ao lugar um bom clima no passado, mas agora, mortas, apenas serviam para aumentar a sensação de abandono.
Eles adentram o lugar, passos lentos, tímidos conforme tentavam se acostumar a um novo nível de escuridão.
—Ele já vai atender o Senhor Ramirez—Dizia uma voz que vinha do balcão da secretária. Era uma voz feminina, velha, arrastada e rouca. Porém não havia ninguém lá. O acompanhante de Ramirez simplesmente grita, vira as costas e sai correndo. Ramirez por outro lado fica congelado.
Talvez o nome dele, dido alto no escuro da sala, vindo de um lugar vazio, tenha sido demais para mexer com a sanidade dele. Ele ainda conseguiu ouvir conforme o outro homem tropeçava no mendigo, gritava ainda mais alto e voltava a fugir. Porém, Ramirez se aproxima do balcão, vendo que, de fato, não havia ninguém abaixado atrás dele. Ele inclinava a cabeça devagar, olhos arregalados e rosto bem branco.
—Pode entrar de livre arbítrio, na sala três, senhor Ramirez—A voz surgia à frente dele, no espaço vazio entre o balcão e a parede. Os olhos dele se voltaram diretamente para o que seria o rosto, a altura de que o som surgira... E nada via. Absolutamente nada. Dois passos para trás e quase molhando as calças, ele se deteve.
De fato, havia quatro salas ali e ele foi, já meio em choque, para dentro da sala três.
=-=-=-=-=
O ambiente lá dentro era um pouco mais agradável. A luz de um abajur deixava o espaço amarelado e uma televisão preto-e-branco antiga estava sintonizada em um jogo de tênis. Claus estava abaixado, pegando uma garrafa de água com gás gelada do frigobar, quando Ramirez entrou.
—Gurowsky? É você mesmo? Caramba... Nós achávamos que você tinha morrido...
—Oi, senta. Quer água?
—Não... Não... Claus Gurowsky? Turma de 97?
—Pô Ramirez —ria baixinho— É este o nome que está nos meus documentos. Senta. —A voz era tranquila, com um leve tom de tédio. Assim que se levantava de trás da mesa, releva-se um homem já chegando aos seus quarenta, tal mesma idade que Ramirez tinha. Mas ao invés de um belo terno e carreira confortável do outro, Claus usava uma camisa simples, barata, e um casaco de couro surrado por cima. As mãos deles também haviam mudado. Claus tinha mãos brutas, dedos grossos e fortes, enquanto Ramirez tinha mãos de digitador, de segurador de uísque fino.
—Você mudou muito... Porque sumiu?
—Mulher e dois filhos lindos. Eu tenho que cuidar deles, né? É isso que se espera. E você? Está bem, hum? O escritório está um sucesso pelo visto. Meus parabéns.
—Eu? Não, eu não. Eu tenho uma namorada de vinte e poucos, estudante de administração, quase metade da minha idade e... Claus, que lugar infernal é este? Eu fui atendido por um fantasma?
—Fantasma ou um sistema de viva-voz na mesa?
—... AHAHAHAHA! NOSSA CARA!! Que susto!! —Ramirez se reclinava para trás— Eu realmente achei que você tinha morrido e que a secretária era um fantasma! Que idiota! Nossa, que alívio!!
Claus dava um sorriso bem breve, e logo o outro continuava.
—Bem. Eu não quero tomar muito o seu tempo, mas eu preciso de sua ajuda. Muito. É um assunto delicado. Mas eu entendo que você atende assuntos delicados, não é?
—Isso mesmo. Algumas pessoas precisam de alguém amigo para fazer algumas tarefas complicadas. Eu geralmente sou esta pessoa. Alguém precisa se perder e sumir?
—Nossa. —Ramirez ficava surpreso, resumir assim um assunto delicado de forma tão abrupta parecia errado. —Não, não, nada disso. Eu quero que alguns documentos sumam, apenas. Coisa bem simples. Eles estão na casa do meu irmão e eu não o quero com estes documentos.
—Como estão seus pais?
—Mal. Sofreram um acidente na avenida da bolsa, no cruzamento, uma van furou o sinal e acertou o carro deles. Ambos estão a perigo, principalmente o pai, coitado, agora respira com aparelhos. É horrível de se ver. Ficamos lá, empoleirados, vendo sem poder fazer nada. O seguro de vida, no entanto é absurdo.
—Sinto muito.
—É... Eu também... Mas enfim, quanto me custaria para tirar o peso destas “responsabilidades administrativas” dos ombros do meu irmão?
—Bem... Não cobro. Eu apenas tenho que cumprir cotas. É bem simples, embora meio burocrático, eu trabalho com uma equipe funerária e gostaria que você assinasse um termo que diz que você quer ir para o nosso estabelecimento depois de morrer.
—Que?! Que loucura... Não entendi direito. É tipo dizendo para qual cemitério eu vou?
—Tipo isso.
=-=-=-=-=-=-=
A caneta deslizava no papel, o contrato parecia bem estranho e não estava registrado em nenhum cartório, Ramirez no bater do olho identificava algumas idiotices que iriam impedir qualquer tribunal de aceitar um absurdo daqueles. Mas se seu ex-colega era maluco, o que ele iria fazer? Não estava disposto de recusar um trabalho de graça afinal. Não estava jogando dinheiro fora ainda.
Enquanto isso Claus passava os olhos sobre as informações que Ramirez dispunha sobre o irmão, sobre a casa em que ele morava, seus horários e tudo mais.
—Cotas então, né? Cumprir cotas? —O tom jocoso e divertido de Ramirez espelhou-se no sorriso de Claus que permanecia quieto—Faltam quantos “contratos” ainda para você cumprir a sua cota?
—Dois. Este e mais um. —Apontando com o dedo o contrato recém-assinado. —Depois disso volto pra casa para minha mulher e filhos.
—Mulher e filhos, não é? Hehe... Bem, você mudou muito Claus, muito mesmo, nem parece ser a mesma pessoa. Hoje é dia de ver fantasmas. Achamos mesmo que você tinha morrido, sabia? No tiroteio da boate. Fomos ao hospital e disseram que você tinha falecido.
—É. Eles disseram a mesma coisa para todo mundo. Pros parentes, pros amigos. Imagina como não se sentiram... Deve ter sido horrível.
—Nooossa, coitados. Como pode um erro horrível destes acontecer? Dá processo, sabia? Imagina se alguém enfarta?
—Coitados mesmo.
—Como estão?
—Quem?
—Teus pais, ora.
—Faz muito tempo que eu não os vejo. Não sei.
—Bem, eu te entendo. De qualquer forma, Claus, cara, foi um prazer. Eu tenho que ir que deve estar caindo a maior chuva. —Eles trocaram um aperto de mãos. Ramirez sentiu a mão gelada de Claus ao redor da sua, fria e dura como mármore. Mas nem de perto tinha sido a coisa mais estranha do começo de noite. Ao sair para a área comum, a sala de espera, fez um gesto obsceno em direção à mesa vazia enquanto falava em direção à viva voz:
—Até mais, boa noite e obrigado.
Ninguém respondeu, conforme ele saia pelo corredor, acelerado e alegre, de espírito leve. Literalmente ele pulou o mendigo e saltitou escadarias acima.
—Grosso—Ouvia-se uma voz de uma senhora na sala de espera.
=-=-=-=
—Olá Ash.
Das sombras da sala surgia uma garota de cabelos castanhos, usando uma jeans negra e uma camisa branca justa. Ela tinha um aspecto belo e perigoso, como o nadar de um tubarão ou o rastejar de uma cobra. Meio hipnótico e levemente desconcertante. Algo a respeito dela era estranho indicava que havia algo ali de inumano, apesar de que tentar determinar o que exatamente era ser infrutífero e frustrante, no mínimo.
—Dust.—Claus indicava a cadeira para que ela se sentasse.
Ela sentava na beira da mesa, virada para ele de braços cruzados, olhando para baixo, direto para o rosto dele— Eu sinceramente não entendo, Sabia? Ver você aí é a mesma coisa que ver alguém usar uma colhedeira agrícola para fazer uma cirurgia plástica. Não é só o desperdício, é que existem pessoas melhores, ferramentas melhores para o trabalho. E ficar atrás de “cumprir cotinhas”? Pegando um por vez? Não, não, não... Olha este lugar, que porcaria. Este lugar está imundo. E televisão preto-e-branco? Sério? Quem usa isso?
—Aparentemente... Eu. Eu não sei, veio com a sala e funciona, nada demais.
—Vamos lá. Tem um monte de guerras lá fora para serem feitas. Ídolos para serem levantados! É a nossa era. Nosso tempo. Genocídios. Imagine os genocídios. Este mundo é nosso e você fica aí... Usando este cadáver feio e pegando um contrato por vez.
—Eu tenho uma cota a cumprir, mais dois contratos comple...—
—“soltar minha mulher e voltar pra casa”, eu sei, você já falou isso antes.
—Então não pergunta.
—Eu não te perguntei! Seu pamonha! Eu estou falando pra você parar de ser lerdo e começar a pensar no seu futuro. Vamos lá Ash, trabalha comigo e eu prometo que você vai esquecer a sua esposa. Na verdade eu vejo muito talento em você. Muito potencial desperdiçado. Mas para exercer isso você precisa expandir seus horizontes, pensar grande, sabe? Este mundo não vai durar muito mesmo e, pelo andar da carruagem, já tem muito peixe grande percebendo a mina de ouro que é este povo. Você tem que aproveitar, o que me diz?
—Dust, para. Na boa, para. Pela nossa amizade. Ninguém vai fazer eu “esquecer” a minha esposa. Muito menos você. Temos um casal de filhos pequenos que precisam dos pais por perto e eu estou pensando neles. Depois penso em promoções, destino, realizações e culto ao meu ego, certo?
—Como você é teimoso!! Ugrh!! Tem coisa muito melhor que sua mulher batendo na sua porta e você nem percebe, né?
—Não, não tem não, Dust.
—Mas é um panaca mesmo. Um troncha, um paspalho... Vocês dois se merecem. Tchauzinho. Fui. Perdeu. —A garota se levanta em um salto e caminha rapidamente para o canto escuro da sala, sumindo tão logo a luz da televisão a ofusca.
=-=-=-
O telefone toca de madrugada na cobertura de num dos arranha-céus da cidade. Ramirez acorda em meio aos seus lençóis de seda. A enorme janela panorâmica mostra um céu escuro, ainda longe do amanhecer. Ele desperta em meio a um susto e atende ligeiro o telefone celular. A seu lado, uma mocinha loura, muito mais nova, desperta também no susto. Seus olhões azuis ficam curiosos conforme Ramirez pergunta já nervoso.
—Alô?
—Senhor Henri M. Ramirez?
—Sim? Sou eu. Pois não? O que houve?
—Eu sou o tenente Stollstein e eu estou ligando para informar que houve um acidente na casa de seu irmão. Como parente único parente em condições, gostaria de chamá-lo para o local.
—Ai meu deus... Não! Não! Monte está bem?
—Sim, está. Está em estado de choque e muito nervoso apenas. Parece que explodiram o cofre.
Foi então que Ramirez sorriu de orelha a orelha. Ele levou a mão até a bunda da garota nua que estava a seu lado e apertou forte. Ela reclamou baixinho:
—O que houve Rami?
—Eu acabei de ficar muito... muito rico.
—Nós né? Nós ficamos ricos?
Ele aperta mais forte com a mão a fazendo reclamar novamente:
—É... Isso... Claro... Nós.
Ele nunca se arrumou tão rápido. Um pente nos cabelos, indispensável, e um traje especial para a ocasião. Uma camisa nova, aberta até o terceiro botão, rosa. Uma jeans, também nova, com rasgados e partes gastas de fábrica e tênis novos, chamativos e brilhantes. Ramires radiava felicidade conforme descia o elevador. Nas mãos, a chave de seu carro esporte.
Como tinha sido rápido! E eficiente! Mas os pensamentos de Ramirez logo começaram a ir para um lugar mais sinistro. E se a polícia tivesse desconfiado de algo? E se fossem o prender? Será que tinham pegado o Claus?
Pensamentos ligeiros ecoam e quicam dentro da mente dele durante a viagem, mas são todos calados quando ele chega junto do portão de entrada para o terreno da mansão da família. O portão estava retorcido, deformado, como se alguma coisa muito grande e muito quente tivesse atravessado as grades.
Além dele, diversas sirenes brilhavam na noite. Ambulâncias, carros policiais e mais outras coisas, talvez bombeiros, Ramirez já não conseguia fazer juízo daquela bagunça toda. Passava devagar com o carro pelo passeio até a entrada da mansão. Os dobermanns da família estavam caídos no chão, mortos. O cheiro do sangue conseguia ser sentido mesmo com as janelas fechadas.
Ele viu, através do vidro do carro, seu irmão embrulhado em um cobertor, sentado junto a uma ambulância. Usando um pijama simples, parecia em estado de choque. Ramirez saltou do carro ali mesmo e correu, esquivando-se de todos dizendo “Sou o responsável, sou o responsável” em direção ao irmão. Quando estava quase chegando, parou surpreso e perdeu as forças nos joelhos.
Pois viu então que parte da mansão havia explodido. A explosão havia arrebentado uma sala, o escritório onde havia o cofre, este tal que detinha os documentos. Mas a explosão fez muito mais que isso. Destruíu a parte de cima da casa e demoliu parte da estrutura. No chão, vários sacos pretos continham corpos, empregados, parentes... os seus sobrinhos.
Ramirez sentiu enjoo e quase vomitou ali mesmo quando começou a contar os cadáveres levando à mão a boca, percebia que quase toda a família do irmão tinha sido morta com a explosão:
—Meu Deus, Monte... Meu Deus...
Ele olhou para o irmão com olhos de vidro. Traumatizados além da compreensão. Monte se levantou devagar, como um zumbi, e caminhou na direção de Ramirez que empalidecia. As mãos de Monte soltaram o cobertor e vieram na direção dele. Ramirez fecha os olhos:
—Não! Para! Me solta!
Mas Monte apenas o abraça, Ramirez demora a entender o abraço e empurra o irmão para longe. O tenente surge detrás da ambulância e olha os dois:
—Senhores, a explosão parece ter sido causada por armamento militar. Estamos informando o exército. Por favor, já existem ordens para que não falem com a imprensa.  
—Entendo policial... Obrigado... Houve sobreviventes? Tirando meu irmão?
—Bem, a sua cunhada que estava no mesmo quarto que seu irmão está em estado grave, mas já foi levada de helicóptero até o hospital. O resto... Infelizmente faleceu. A explosão afetou justamente o andar inferior, abaixo dos quartos.
Ramirez compreende e assente com a cabeça, o policial parece querer dar um momento para os irmãos e sai. Monte, agora volta a se sentar, já sem a coberta e fala, meio trêmulo:
—Eu não entendo quem poderia ter feito isso. Cachorros, crianças... Crianças... Gente inocente.
—Apenas um monstro, Monte. Apenas um monstro. Eu sei que nada que eu faça irá trazer sua família de volta. Infernos. Nossa família de volta. Pois eram meus sobrinhos também! Mas eu vou te vingar, Monte. Eu prometo que eu vou matar o filho da puta que fez isso.
—Não precisa Henri. Não precisa. Eu já cuidei disso.
Ramirez sente um frio na espinha, um calafrio sinistro.
—Erm... Como assim, Monte? Você não está em estado de tomar decisões, você sabe.
—Um demônio, eu acho... Disse que poderia cuidar do mandante do atentado, se eu assinasse um contrato faustiniano. Ele disse que estava com pressa e precisava de mais um contrato para cumprir a cota.
—Ai meu deus! AI MEU DEUS!!
Em um salto de recuo Ramirez deixa o inconsolado irmão para trás. O abandonando quando este o chama com a mão. Não podia ser, não aceitava isso. Agora Ramirez precisava fugir dali desesperadamente.
Alguém precisaria falar com Claus novamente e fazer outro contrato, alguma coisa para amenizar ou reduzir, quem sabe anular o contrato sobre a sua própria cabeça. Quem sabe a namorada? Ou seu parceiro e advogado que havia fugido antes? Ele não sabia mas, saltou dentro de seu carro e fugiu com o som de pneus queimando e fumaceira.
Os policiais, vendo que Ramirez estava totalmente fora de controle, tentaram evitar que ele saísse acelerado de carro, mas mesmo tentando se jogar no caminho do carro, Ramirez derrapava e a nada iria para-lo. O carro praticamente se joga na estrada, conforme faíscas brilham na noite, já que a intensidade do movimento fazia com que o fundo do carro batesse contra o asfalto.
Corria. Velocidade impressionante e celular na mão trêmula, ele precisava ligar para a namorada: “Atende, caralho, atende!”. À frente, o farol de trânsito ficava vermelho, mas Ramirez iria aproveitar a velocidade e atravessar nos primeiros segundos de sinal vermelho.
E então... Faróis o ofuscaram pelo lado esquerdo. Ramirez sabia que iam bater e que não havia nada que pudesse ser feito, olhou para o carro que vinha em seu flanco e disse baixo para o motorista:
—Claus, seu filho da pu...
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A manhã começava com fila na avenida. Um acidente gravíssimo tinha ocorrido de madrugada e os bombeiros ainda tentavam limpar a pista. Os jornais no rádio e televisão não comentavam outra coisa. Com a morte de Henri, Monte M. Ramirez passava a ser o único herdeiro de uma empresa milionária, mas nenhum dinheiro no mundo poderia aplacar a dor que o homem sofria, tendo perdido tantos parentes inocentes.
Já havia sido encontrada evidencia apontando um grupo rival, que estaria ocultando um núcleo terrorista, ou pelo menos era isso que os jornais publicavam. Monte já dizia, naquela manhã, que não pouparia esforços para “trazer a justiça todos os responsáveis”.
Ash caminha a pé, observando o céu azul, ao lado do engarrafamento. Uma moto linda, moderna e bem esportiva para do lado dele com um ronco quase felino. Dust tira o capacete e o olha de canto:
—Andando a pé? Perdeu o carro?
—É, foi. —Ash sorri brevemente e levemente orgulhoso.
—Você começou uma pequena guerrinha pra me agradar, não é? Eu percebi. Eu sou boa com isso. Eu não achei que você seria esperto o suficiente para querer me agradar.
—Eu terminei a cota. Estou livre.
—Não acho que você vá querer trair sua “esposa e filhos” para vir comigo. Mas... Se quiser, só subir na garupa.
Ash vem perto da moto e rouba um beijo de Dust. Os lábios colam uns nos outros conforme ela arregala os olhos, surpresa. Ela corresponde o beijo de uma forma intensa, interessada e alegre: “Finalmente, ele está pensando”.
—Eu não posso trair minha esposa com você Dust. Seria fisicamente impossível.
É entregando a pilha de contratos da mão de Dust que os olhos dela ficaram realmente impressionados. Memórias antigas que haviam sido tomadas por uma multa voltavam a ressurgir. Os dois antigos a muito caminhavam lado a lado causando destruição por onde passavam e de fato, tinham dois pequenos filhos, um casal. Tão talentoso em destruir mundo quanto os pais, mas precisavam ainda de treinamento.
As folhas, dos contratos, perdiam seu encanto, conforme a maldição era levantada. Dust deixa as folhas voarem no vento, as soltando. Ash sobe na garupa e passa as mãos ao redor da cintura dela, a abraçando.

Dust sorri, um sorriso realmente feliz e sai com a moto costurando pelo engarrafamento. Apenas para desaparecer ao passar por uma sombra.